domingo, 20 de junho de 2010

ESCULTURA DE PAPEL MACHE

EXPRESSÕES DO COTIDIANO



         Hoje, não só nas grandes metrópoles, mas também nas regiões castigadas pela natureza, nos deparamos com cenas da vida urbana que muito nos comovem, onde as oportunidades são raríssimas. Diante dessa vida dura e sofrida, há uma grande parte da população que tem de lutar para sobreviver no campo, nas ruas das cidades, nos vilarejos e favelas. São pessoas perseverantes e resignadas com essa condição desumana, que inconscientemente revelam, através dos olhares, das marcas do tempo sulcadas em seus rostos, todas as angústias, medos e sonhos.
          O desejo de trabalhar dentro desse universo social, surgiu há muito tempo, ao observar e conviver diariamente com o modo de vida dessas pessoas simples, excluídas pela sociedade, onde o emprego, a escola e a moradia são privilégios de poucos, mas que, apesar dos obstáculos encontrados, têm a capacidade e a altivez de enfrentar essa dura realidade e ainda assim, conseguir sobreviver com uma certa dignidade. Com uma visão crítica e solidária, essas pessoas foram observadas e serviram como fonte de inspiração para a criação das esculturas, as quais foram utilizadas como veículo para traduzir os olhares, os gestos, as atitudes, enfim, as expressões desse povo sofrido.
         A sensibilidade fez aflorar um certo inconformismo que influenciou o meu estado de espírito e caracterizou toda a minha obra. Para materializar este sentimento, descobri, na escultura, o veículo mais eficaz para gerar uma reflexão sobre o problema abordado, além de permitir a minha realização pessoal. As pesquisas teóricas revelaram que alguns elementos presentes em meus trabalhos assemelhavam-se às características encontradas nas esculturas de Rodin, Matisse e, principalmente, Giacometti.
         A massa de papel foi escolhida para a produção das obras devido à grande facilidade no seu manuseio, à maleabilidade, à resistência, e ao baixo custo, permitindo inúmeras possibilidades de aplicação e efeitos estéticos.
        Então, utilizando a técnica de modelagem com essa massa, realizei uma série de obras expressivas nas quais externei a minha indignação diante de um contexto social, reafirmando os pontos de semelhança com as influências acima citadas, sem, no entanto, declinar das características pessoais que identificam esta produção escultórica.







         As expressões do cotidiano representadas neste trabalho foram retiradas dos grupos sociais teoricamente mais sujeitos às dificuldades do dia-a-dia, e que carregam, visivelmente, em seus corpos, as marcas de uma dura existência também estampada nos seus rostos.
          Portanto, para traduzir esteticamente essas questões, inspirei-me nas atividades rurais ou braçais de execução difícil e sofrida; nos trabalhos domésticos de mulheres humildes buscando o sustento dos filhos; no trabalho infantil, desumano, que impede o desenvolvimento natural das nossas crianças; e por fim, na alegria ingênua de crianças em brincadeiras simples e rudimentares.
         O trabalho de construção das esculturas envolveu uma série de atividades específicas, a fim de tornar efetiva, real, a idéia concebida durante o processo de criação. Entre essas atividades, cabe destacar o ato de modelar, porque se tratou de uma etapa importantíssima do processo criativo, uma vez que, através dele é que verdadeiramente se tornaram reais, palpáveis, concretas as minhas impressões.
         As “expressões do cotidiano” devem, obrigatoriamente, transmitir o meu sentimento, sob pena de descaracterizar o objetivo de crítica social e de provocar indignação no observador. Dessa forma, a modelagem das peças constituiu-se em um ato pessoal, intuitivo, sensorial, em que procurei exprimir toda a minha carga emocional por intermédio do material que tinha em mãos.
          O ato de modelar aguça a sensibilidade dos dedos, do olhar e da alma. Na modelagem as mãos e os dedos do artista são as suas principais ferramentas. Uma estrutura sólida e rígida, quando recoberta por qualquer material maleável, adquire a forma desejada pelo artista. Esse volume de massa, sem forma, vai se transformando pouco a pouco, saindo de dentro da sua imaginação, fazendo de suas mãos e dedos instrumentos de materialização da idéia concebida, surgindo, assim, detalhes de lábios finos ou grossos, sulcos dos cabelos, olhos com expressões tristes ou alegres, marcas de rugas na face, para finalmente um rosto tomar vida própria com suas particularidades.
          Dessa forma, foram criadas várias peças, cada uma delas com características próprias, umas aparentando serem talhadas na pedra, outras parecendo fundidas em bronze, e por fim, uma outra com o aspecto de ter sido modelada no barro. Possuem cores e texturas peculiares e contêm uma verticalidade que contribui para acentuar a forma esguia que prevalece em todas elas, além de revelar nos gestos ou movimentos toda a expressividade que evidenciam, não apenas as particularidades e sentimentos dos tipos escolhidos, mas também o meu estado de espírito, pois, ao utilizar a arte escultórica como veículo para gerar uma reflexão sobre o problema social, pude materializar esteticamente minha indignação e expressar toda a emoção que o tema desperta em mim.

Eliana Barbosa

Campo Grande, 2004




Questões sociais:

 • É uma produção escultórica que retrata pessoas simples, humildes, do campo e dos centros urbanos, fontes de minha inspiração;
• Busquei expressões e sentimentos nas atividades rurais ou braçais de execução difícil; nos trabalhos domésticos, no trabalho infantil e nas brincadeiras ingênuas de crianças que expressam os sentimentos e as dificuldades vividas por cada uma delas.
• Fiz então vários desenhos retratando as cenas do cotidiano dessa parcela carente da sociedade e, em seguida, escolhi aqueles de maior expressividade.



                   


                 



Influências:



• Auguste Rodin (1840-1917), por retratar a expressividade da figura humana em movimento e desprezar o aspecto externo de acabamento, talvez o maior de sua época, que foi alvo de violentas controvérsias entre os críticos, desprezava o aspecto externo de “acabamento”, o que contribuiu de maneira acentuada para facilitar a aceitação do impressionismo, fora do estreito círculo de seus admiradores na França. Mas a contribuição fundamental de Rodin, residiu na compreensão genuína dos problemas da forma e de sua inserção no espaço. Foi pela regeneração das propriedades táteis da escultura, pelo respeito ao material de que se utilizou, pela ordenação rigorosa de suas imagens, obtida pela ciência do modelar, entendida como sendo “as saliências dos volumes interiores”, que Rodin se tornou influente na Europa, suscitando, neste século, o respeito dos escultores de vanguarda da criação artística.










Auguste Rodin, Spirit of War



• Henri Matisse (1869-1954, por produzir esculturas sinuosas, tensas e emocionais, com deformações, em parte suscitadas pela incidência da arte negra cujos detalhes eram também desprezados.












• Alberto Giacometti (1901-1966), a principal influencia, por buscar uma nova maneira para as relações entre a forma e espaço, ao modelar a figura humana. Suas esculturas são alongadas, muito finas, sinuosas e cheias de expressividade.
           Por alguns anos abandona o método de trabalho sob o estímulo de modelo e se prende ao simbolismo interior para produzir algumas obras, e a partir de então, suas peças foram construídas em pequenas dimensões que compuseram, em parte, a contribuição do artista para o surrealismo. Essa fase, porém, não se encerrou sem que ele retomasse a figura numa escala normal de proporções, as esculturas alongadas, com braços e mãos esticados ao lado do corpo são carregadas de expressividade, demonstrando num esforço sobre-humano, a tentativa de conhecer a realidade absoluta que supõe existir na aparência das coisas.
          
                               

     
          Giacometti buscou novas soluções ou uma nova abordagem para as relações entre forma e espaço, formas vivas e abstrações intelectuais. A dimensão de sua experiência exteriorizada em suas obras foram únicas, atributo criativo de sua peregrinação.



Fonte:
GOMBRICH, E. H. A história da Arte / Gombrich E. H: tradução de Álvaro Cabral. 16ª ed. Rio de Janeiro: Editora LTC S.A. 1994.
KRAUSS, Rosalind E. Caminhos da escultura moderna / Rosalind E. Krauss: tradução de Julio Fischer. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1998.
TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

TUCKER, William. A Linguagem da Escultura. SP: Cosac & Naify, 1999.
WITTIKOWER, Rudolf. Escultura. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Auguste_Rodin
http://www.rodinmuseum.org/

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